• Entrevista Exclusiva de Opera Lively com a soprano brasileira Flavia Albano

    Dando continuidade à nossa cobertura das atividades do Theatro São Pedro, em São Paulo, trazemos hoje para nossos leitores uma interessante entrevista exclusiva com a soprano e professora de voz brasileira Flávia Albano que cantará o papel de Adin na ópera Condor de Carlos Gomes, domingo, 27 de março.

    Já publicamos a entrevista com a soprano brasileira Marly Montoni que faz o papel feminino principal, Odalea. Clique [aqui] para ler.

    Em breve publicaremos outras duas entrevistas exclusivas com o coordenador artístico do teatro, Paulo Esper, e com o maestro Luiz Fernando Malheiro, diretor artístico e regente titular do Theatro São Pedro. O maestro discorre também sobre o Festival de Ópera de Manaus, inclusive detalhando a primeira produção nacional do Anel do Nibelungo, de Wagner).

    Em breve publicaremos também um parecer crítico sobre o espetáculo Condor, além de mais informações sobre a ópera e sobre as atividades do Theatro São Pedro, uma instituição admirável.

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    Cantora: Flávia Albano
    Fach (classificação vocal): soprano coloratura
    Natural de: São Paulo, SP, Brasil
    Website: flaviaalbano.com.br



    Biografia Artística

    É natural de São Paulo, onde iniciou seus estudos em canto com Leilah Farah e, mais tarde, graduou-se pela Faculdade de Música Carlos Gomes. É mestre e especialista em performance pelo “Royal Northern College of Music” (Inglaterra), onde estudou com o tenor Thomas Schulze.

    Seus papéis em ópera incluem Adele em “Die Fledermaus” (J. Strauss), Susanna em “Le Nozze di Figaro” (Mozart), Fräulein Silberklang em “Der Schauspieldirektor” (Mozart), Le Feu em “L'enfant et les Sortilèges” (Ravel), Dona Florzinha em “Maroquinhas Fru-Fru” (Mahle), Bastienne em “Bastienne und Bastien” (Mozart) e excertos de “Der Rosenkavalier” (R. Strauss), como Sophie, acompanhada pela Orquestra Sinfônica do “Royal Northern College of Music".


    Flávia em Le Nozze di Figaro


    Flávia em As Marroquinhas Fru-Fru

    Flávia também possui grande apreciação pela música de câmara e de concerto, tendo cantado obras de Alban Berg, Richard Strauss, Olivier Messiaen e outros em recitais e festivais pela Europa. Participou de premières de diversas obras de música contemporânea, além dos Réquiens de Fauré e Mozart, “A Criação” (Haydn) e "Missa em Dó Maior" (Beethoven), entre outros, com sociedades corais do Reino Unido.



    Participou de masterclasses com Barbara Hendricks, Dame Kiri te Kanawa, Jane Eaglen, Ana Maria Sanchez e Kate Flowers. É ganhadora do prêmio “Liverpool Opera Circle Vocal Award 2010”, finalista dos prêmios “The Frederic Cox Award 2009” e “The Joyce and Michael Kennedy Award for the Singing of Strauss 2008” e esteve entre os vencedores do “RNCM Concerto Auditions 2009” com “Bachianas Brasileiras no. 05” (Villa-Lobos).

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    Entrevista Exclusiva de Opera Lively com a soprano Flávia Albano

    Esta é a entrevista Opera Lively de número 197. Direitos autorais de Opera Lively. Reprodução de trechos dessa entrevista é autorizada desde que a fonte seja citada e um link para a entrevista completa esteja disponível. Para reproduzir a entrevista completa, use o botão Contact Us. Fotos são usadas como uso promocional razoável - não sabemos o nome dos fotógrafos para créditos mas ficaremos felizes em acrescentar, se formos informados.


    Luiz Gazzola para Opera Lively - “Nelle regno della rosa” abre a ópera sem dar-lhe tempo para aquecer, e já tem certa coloratura leve, no final. Parece-me o que chamamos de ária exposta. Isso traz alguma dificuldade para a interpretação?


    Flávia Albano – Já que o Adin abre a ópera, pode-se dizer que sua primeira participação é uma ária exposta. O papel todo do Adin é muito interessante, porque tem momentos que puxam um pouco mais para o soprano lírico, e outros nos quais me sinto completamente à vontade como soprano coloratura. E logo essa primeira ária tem uma construção um pouco mais lírica, então sinto que é pesada. Mas isso é interessante para começar uma ópera. Se eu já começasse muito na coloratura, talvez trouxesse mais dificuldade ainda. A ária nem é tão aguda assim, na verdade; chega em um Lá. Então o fato de abrir com essa ária é até bem confortável. Claro que começar uma ópera com uma ária nunca é uma coisa tranquila, não é? Mas não é tão aguda como o resto do papel. O Adin mais para a frente no quarteto chega em um Ré.

    OL – E “Avea sultana altera” no ato III?

    FA – É muito mais difícil. A intervenção da serenata do Adin no meio da ária da Odalea é muito mais difícil. Foi escrita para ser cantada atrás da cortina. O Adin não está em cena nesse momento, mas na nossa montagem a gente decidiu colocá-lo no palco. Então isso traz uma outra dificuldade porque a gente precisa adequar uma voz que não seja tão forte, e eu estou fazendo a ária bem piano; é uma ária bem aguda, e muito exposta. No trecho em piano a orchestra quase não tem acompanhamento nenhum. São acordes raros, e é muito livre. O tempo todo Carlos Gomes coloca que é “col canto, col canto, col canto.” Essa liberdade, essa necessidade de fazer tudo muito piano é que é bem mais complicada do que a primeira ária. E para terminar, tem aquêle Sí pianissississimo no final dessa serenata que é a maior dificuldade.

    OL – Interessante. As pessoas sempre pensam que a maior dificuldade é puxar mais forte, mas fazer o pianíssimo também não é fácil, não é?

    FA – Não, eu considero mais difícil, porque qualquer coisinha, se esbarrar no lugar errado, quebra. Tem que estar bem alerta, bem focado e concentrado.

    OL - O papel de Adin é como um observador dos acontecimentos, algo que normalmente é feito pelo coro; não que em Condor o coro não tenha também esse papel, representando o povo, chocado com as ações de Odalea. Algum comentário sobre as características psicológicas de Adin?

    FA – O Adin é um pagem. Eu procurei pensar sobre ele. O libreto não fornece informações de idade, então eu penso que ele é aquele pagem meio Cherubinesco. Pensei que talvez ele tivesse uns doze a quatorze anos de idade. Acho que era a idade normal de um pagem. Ele está sempre acompanhado do coro. Você comentou que geralmente quem observa tudo é o coro. No caso o Adin também observa tudo e no primeiro ato pelo menos ele está acompanhado do coro o tempo todo. Acho que ele não tem a compreensão da dimensão dos acontecimentos, então está observando e acha tudo muito divertido. Ele passa o quarteto inteiro rindo. Sinto que ele está sempre aquém dos acontecimentos.

    A Odalea faz uma ária super emocionada, e Adin traz um conto de um pombo que se apaixonou por um gavião, como uma criança, mesmo. Acho que ele não entende muito bem a seriedade do que está acontecendo. Em todas as aparições dele isso é evidente na música. Eu estava comentando com o nosso pianista que todas as vezes que ele aparece, existe uma alteração de andamento. O andamento muda quando o Adin começa a falar, ou quando ele se aproxima. Ele está achando tudo muito engraçado e divertido; é alguma coisa que muda o cotidiano dele dentro daquele palácio, que deve ser chato para ele, não é? As intervenções dele são sempre meio romantizadas, meio Cherubinescas, mesmo. Ele é romântico no sentido de que parece que a cabecinha dele está sempre em outro lugar, como uma criança.

    OL – Na récita semi-encenada que vocês farão domingo, tentam fazer uma representação também, ou ficam estáticos no palco?

    FA – Não, a gente tem figurino, e tem cena, também.

    OL - Normalmente sopranos não fazem papéis masculinos, que são geralmente reservados para mezzo-sopranos. Você acha divertido fazer um papel masculino? Como é que você adquire na sua representação a linguagem corporal dos rapazes?

    FA – Sim, é a primeira vez que eu faço um “trouser role.” Sinceramente fiquei super empolgada, super feliz, porque nunca tive uma oportunidade de fazer. É muito complicado porque tem uma linguagem corporal diferente. Eu procurei observar na rua mesmo, como os meninos de doze a quatorze anos andam. Tentei mudar um pouco o quadril. Percebi que o quadril é o que diferencia muito o caminhar de um menino e de uma menina. Eu fiz um trabalho corporal para observar quais são as mudanças de uma menina para um menino. Claro que o figurino ajuda bastante, mas foi um trabalho de pesquisa.

    OL - Por favor, comente a respeito dos elementos musicais exóticos da ópera, especialmente no "Notturno." Confesso que apesar de isso ser mencionado por musicólogos, o "Notturno" me lembra mais do Intermezzo da Cavalleria Rusticana, do que de elementos exóticos como em Lakmé ou L’Africana ou Les Pêcheurs de Perles. Na verdade penso que o "Monólogo de Odalea" é mais exótico. Qual é sua opinião sobre essa peça instrumental?

    FA – No Condor, quando a gente começa a ler um pouco percebe que Carlos Gomes estava experimentando coisas novas, de uma forma geral. Ele voltou para o Brasil, depois voltou a Milão para compor Condor. Quando ele chegou em Milão começou a observar o que estava acontecendo no entorno, e talvez tenha percebido que precisava inovar. O que a gente observa bastante é uma coisa meio Wagneriana de motivos. Tem muitos leitmotivs no Condor. Todas as vezes que o Adin entra em cena, tem alguma parte da primeira ária dele que reaparece.

    OL – Ele também repete um pouco a melodia do "Notturno," não é?

    FA – Isso. O "Notturno" tem partes da ária que ele vai cantar depois. Carlos Gomes estava em um processo de experimentação muito grande, que talvez depois não tenha dado certo. Condor não foi muito bem aceita, mas de qualquer forma ele experimentou muito. O "Notturno" especialmente eu gosto de pensar que é uma preparação para a ária da Odalea mesmo. Ela vai estar, na encenação e na partitura, agitada, preocupada com o amor, e o "Notturno" introduz isso. Em alguns momentos ele coloca alguns dos temas do Adin que vão aparecer mais à frente.

    Na verdade eu acho que o Condor todo é exótico. Eu não tive muita experiência de cantar Carlos Gomes, mas gosto muito, escuto bastante, e é uma ópera completamente diferente de todas as outras.

    OL – É verdade.

    FA – Na estrutura e na condução das vozes ele mantém as preferências dele. Ele gosta de soprano grande para o papel principal, e sempre tem um pagem. Essas estruturas ele mantém, mas musicalmente é a ópera mais diferente dele. Eu acho que o exótico que você comenta se estende à ópera toda de uma maneira geral. A gente percebe essas experimentações dele, até no sentido de que quando ele chegou em Milão estava em voga o verismo. As pessoas queriam ópera verista. Aí ele apresentou o Condor, e eu até vejo um pouco de verismo no Condor. Independentemente de ter dado certo ou não, é louvável que ele tenha percebido uma mudança no gosto das pessoas e tenha tentado coisas novas.

    OL – E mesmo assim o Condor foi considerado ultrapassado. Não teve muito sucesso, porque a tendência já era muito mais forte para o verismo.

    FA – Exatamente. Ele foi considerado ultrapassado. As pessoas não gostaram do Condor, na verdade.

    OL – Mas em termos de beleza, apesar do libreto fraco, musicalmente eu acho a ópera Condor muito bonita, com Carlos Gomes maduro. Acho o terceiro ato magnífico, extremamente bonito.

    FA – É o meu ato preferido. O quarteto é uma coisa incrível. O final, logo após o quarteto, depois daquele dueto enorme do Condor com a Odalea, musicalmente é uma coisa maravilhosa. Por isso que eu digo, talvez até seja o caso de pensar que essa ópera está na verdade já dentro do verismo. Mas o terceiro ato é lindíssimo. É muito bem escrito e muito bem construído. O quarteto do Adin com a Zuleida, o Condor, e o Almazor, é maravilhoso.

    OL – Certo. E fica muito difícil, sem legendas, sem orchestra, sem coro, para que as pessoas consigam perceber e seguir a estória? Como vocês vão fazer para que essa apresentação seja convincente?

    FA – O libreto é muito complicado de entender. Já começamos daí. A falta de um coro também complica a nossa situação. Então em alguns momentos a gente vai ter a intervenção de um narrador, e esperamos através do narrador e da interpretação, fazer com que as pessoas entendam a estória, sem a legenda.

    OL – O público das Tardes de Ópera tende a ser composto por gente que conhece bem o gênero, ou por pessoas que ainda estão se aproximando?

    FA – É a terceira Tarde de Ópera que eu faço. Existe um público do São Pedro que é cativo, que vai em qualquer coisa que tenha no teatro. Mas em se tratando de feriado de Páscoa, imagino que tenha um pessoal que vai comparecer sem nunca ter visto ópera. É interessante, do ponto de vista de que é uma ópera mais curta, mais condensada. Tem cortes. Para as pessoas que nunca viram uma ópera, acaba sendo um programa interessante, porque é mais curto, com narração, com alguma projeção atrás; elas acabam entendendo a estória. Para uma primeira imersão no mundo da ópera, acho que fazer a ópera mais curta é melhor. Mas tem sim um pessoal que é cativo, que entende muito de ópera, e está sempre lá.

    OL - Quais são os seus próximos papéis?

    FA – Atualmente estou trabalhando com a classificação vocal de soprano coloratura. Na temporada do São Pedro recentemente eu fiz O Pirata, e Don Pasquale. O próximo papel que vou fazer será a Amina em La Sonnambula. Estou enveredando para esse lado do bel canto, com o qual eu tenho mais familiaridade e tenho tido mais êxito.

    OL - Como foi o seu treino?

    FA – Eu estudei canto aqui no Brasil. Fiz meu Bacharelado, comecei a cantar, fui aluna da dona Leilah Farah que foi uma professora de canto famosíssima, e há uns sete ou oito anos ganhei uma bolsa e fui estudar canto na Inglaterra. Passei quase cinco anos em Manchester, no norte da Inglaterra. Peguei meu título de Mestrado lá. Passei esses cinco anos estudando bastante, e mais no final consegui também trabalhar com umas companias de ópera pequenas.

    Mas acabei decidindo por voltar para o Brasil, porque as coisas lá na Europa não estavam tão simples assim. A gente acha que tem emprego para todo mundo, mas não é bem assim. No Brasil eu tenho esperança. Tenho visto coisas muito boas como a iniciativa do Theatro São Pedro que tem tentado fazer tudo o que é possível para deixar o teatro cheio de gente e com muita coisa acontecendo.

    OL – Eu fiquei impressionadíssimo com a diversidade das apresentações, com as Tardes de Ópera, as Óperas em Concerto, a temporada... Somando todas as séries há mais de 80 espetáculos.

    FA – Isso é maravilhoso. Dá oportunidade de a gente trabalhar, dá oportunidade para o público ver coisas que não veria normalmente. Quando teria um Condor numa programação normal de um teatro? Não teria, não é? É muito difícil. Teve uns anos atrás em Manaus, mas aqui em São Paulo, não teríamos.

    OL – Eu mesmo nunca ví o Condor ao vivo.

    FA – Pois é, eu acho que esse tipo de iniciativa como a do Theatro São Pedro me faz ter muita esperança. Claro que tem outros lugares no Brasil que estão com essa mesma idéia. A gente está em crise, está sem dinheiro, tudo isso a gente já sabe, mas eu acho que a gente precisa se apegar a essas iniciativas, e observar que tem gente querendo fazer as coisas, ainda.

    OL – E você leciona também, não é?



    FA – Eu leciono. Além da minha vida de cantora, sou professora de ensino superior. Dou aula num curso de licenciatura em música. Meu trabalho é na formação de professores para atuar no ensino básico, em colégios, com musicalização de crianças.

    OL – Ah, que legal.

    FA – Então eu não posso reclamar. Eu na verdade ganho a minha vida com música; pago todas as minhas contas com música, apesar de tudo o que está acontecendo no Brasil. A gente diz que a cultura está ruim, e está. Não está bom. Mas eu ganho a minha vida sim, e acho que dá pra ganhar. Além disso tenho muita esperança de que as coisas estejam melhorando aos poucos. A gente vê iniciativas muito bacanas, um pouquinho ali, um pouquinho aqui, como por exemplo o ano passado participei da temporada de aprendiz de maestro. Não sei se você conhece esse projeto. É um projeto do TUCCA que é para crianças com câncer, [Ver detalhes clicando (aqui)] mas que de alguma forma ou de outra leva a ópera e a música para gente que nunca viu.

    Então eu acredito que estejamos no caminho certo mesmo com o pouco dinheiro que a gente tem, e com o pouco apoio. A gente tem várias vertentes acontecendo. A primeira é a das pessoas querendo ensinar música na escola. Isso é importantíssimo, porque se a gente não ensina essas crianças não teremos público daqui a vinte ou trinta anos. A segunda vertente é levar a música e a ópera para adolescentes que estão por aí, que nunca viram.

    Na semana passada tivemos uma experiência fantástica, uma oportunidade de cantar o Requiem do Verdi com a OSESP. Foram distribuídos ingressos gratuitos. Várias pessoas que nunca tinham ido à Sala São Paulo foram, e aí você vê que a pessoa só não tem a oportunidade de ir, porque quando vai, gosta, e tem a capacidade de comentar, de dizer se aprecia ou não. Então acho que o que falta é a oportunidade, de todos os lados. Oportunidade para criança, para adulto, para quem faz música, e para quem quer levar a música. As pessoas estão querendo fazer, o que já é o primeiro passo.

    OL – Com esse trabalho todo, com a situação da ópera no ambiente cultural e econômico do Brasil, você acha que vocês estão conseguindo uma penetração de popularidade? As casas estão cheias?

    FA – Olha, o que recentemente eu tenho visto são casas cheias, graças a Deus. A última produção do Theatro São Pedro da qual participei como coralista, o Don Quixote, que teve o Gregory Reinhart, um baixo americano de projeção internacional, não tinha uma cadeira vazia.



    O Requiem de Verdi também não tinha um lugar vazio na Sala São Paulo. Então eu tenho para mim que as pessoas querem ir. A gente só precisa primeiro, divulgar, e segundo, fazer com que o público possa ir, com ingressos acessíveis, horários, e datas. Toda essa história de assinatura eu acho super bacana. Agora o Theatro São Pedro, o Teatro Municipal, e a OSESP têm assinatura; isso é muito legal. Você fideliza o seu público. O público é fiel a você, com preços mais baratos. Então eu acho que a gente tem o público e tem os espetáculos de qualidade.

    Nesse sentido a série Tarde de Óperas é muito interessante, porque permite um primeiro contato gratuito; aquele público vai ficar exposto à ópera menos tempo, para ter tempo também de pensar, de refletir, do ouvido acostumar, pois não é uma coisa normal, né? Então eu acho que todas essas coisas que estão acontecendo, óperas didáticas, concertos didáticos, mesmo na nossa economia que está uma bagunça, fazem com que o ambiente cultural brasileiro persista. Estamos conseguindo coisas muito boas. E tem estado cheio.

    OL – E quanto à qualidade dos espetáculos e dos cantores, como você compara com outros países?

    FA – É, eu acho que o cantor brasileiro não tem oportunidades. Talvez as pessoas até fiquem bravas comigo por causa disso. Dada a oportunidade, o cantor brasileiro faz coisas incríveis. A gente tem capacidade. Eu estudei no conservatório. A gente não fica aquém da formação de ninguém. Falamos línguas, temos a voz muito bonita, muito bem trabalhada. Temos professores de canto muito bons no Brasil, pessoas que têm condição de pegar um cantor jovem e transformá-lo num bom cantor. Então eu acho que faltam lugares para gente se expor, dar a cara a bater.

    OL – A Marly me disse que faltam agentes para gerenciar as carreiras.

    FA – Isso. Não temos agentes. Aqui no Brasil que eu saiba há três ou quatro. O agente não vai querer cinquenta sopranos. Ele tem o casting dele, e são esses cantores agenciados que ficavam sabendo de audições. Agora recentemente as audições têm sido mais divulgadas, mas isso está acontecendo há pouco tempo.

    Acredito piamente que dada a oportunidade o cantor brasileiro é fantástico e chama a atenção das pessoas. A gente tem um calor da voz, principalmente para a Europa. Todo mundo falava para mim, “Nossa, sua voz é tão diferente, tem uma cor tão quente,” eu acho que isso é do brasileiro, é do clima, é da gente. Agradeço muito as oportunidades que o São Pedro está dando para mim e para muitos cantores.

    OL – Não sei se estou mal informado, mas esse tipo de trabalho que nos Estados Unidos a gente chama de “outreach” – fazer essas Tardes de Ópera, a ópera na escola, tudo isso, não sei se o Municipal faz nada disso.

    FA – Não, não tem feito. Eu tive oportunidade de trabalhar em um programa maravilhoso na OSESP. É um programa fantástico de formação de platéias, mas é música de concerto. Eles trazem as crianças, alugam ônibus para buscá-las na escola, dão lanche, e é uma coisa que precisa. Mas se a gente for pensar, uma cidade como São Paulo ter dois programas – eu sei que a Orquestra Sinfônica de Santo André faz também uma coisa nesse sentido – é muito pouco. Cantores e instrumentistas brasileiros são estudiosos, a gente se aplica, quando queremos uma coisa vamos atrás, mas precisamos de oportunidades – não que não tenha, mas precisa de mais.

    OL - Agora, algumas perguntas mais pessoais. O que a levou a abraçar a carreira de cantora de ópera?



    FA – Acho que eu fui pega no meio do caminho e não tive como voltar [risos]. Minha mãe é pianista; deu aula em escola municipal. Até hoje tem uma carreira de professora de música erudita. Eu comecei como violonista clássica, tocando violão erudito. Me dei conta de que eu não tocava como eu gostaria de tocar, e fui fazer Educação Física, mas alguma coisa me chamava, e acabei fazendo dois cursos ao mesmo tempo, entrando também na Faculdade de Canto. Pensei, “vou fazer duas faculdades, aí a que eu gostar mais, eu escolho.” Quando terminei meu Bacharelado em canto eu pensei “acho que vou preferir a Educação Física mesmo.” Mas acabei ganhando essa bolsa para ir para a Inglaterra, e nunca mais saí. Parece que toda vez que eu quero sair, alguma coisa me chama.

    OL – [Risos] Mas você fica tentando sair?

    FA – Eu fico tentando sair mas não consigo! [risos]

    OL – Mas porque voce tenta sair?

    FA – Ah, eu não sei... é uma carreira difícil, né? Agora estou em um momento em que estou muito feliz com as coisas que estou fazendo, mas houve tempos em que eu não estava fazendo nada. Tem sempre – a Marly deve ter te falado – aquele momento em que você está estudando para você mesma na sua sala, sozinha. E aí te dá um pouco de “e agora, o que é que eu vou fazer?” Mas toda vez que eu tentava sair, alguma coisa acontecia. Agora acho que eu já me resignei que é isso mesmo. [risos] Eu cheguei a fazer teatro depois, mas sempre focada na ópera. Nunca mais tive a idéia de sair da ópera, já fazem aí, sei lá, não sei quantos anos.

    OL - Como você define a própria maneira de ser e de enfrentar a vida?

    FA – Quando as pessoas me perguntam o que eu faço, eu tenho um pouco de dificuldade em falar que eu sou cantora. Eu não sei... você é músico?

    OL – Não; eu me considero um musicologista autodidata. Estudei muito por conta própria mas sem uma formação universitária. Faço jornalismo de ópera pelas noites e fins de semana, mas de profissão sou médico psiquiatra e psicanalista. Tenho dezenas de livros sobre ópera, 500 óperas diferentes em casa, milhares de gravações, e viajo muito para ver ópera ao vivo no Metropolitan em Nova York, na Europa... desenvolví essa paixão por muitos anos, mas nunca frequentei um conservatório.

    FA – Então você nunca teve que dizer “eu sou músico.” As pessoas perguntam “o que você faz na vida” e a gente fala “eu sou cantora; eu sou musicista” – as pessoas falam “ai, que lindo” mas não entendem o sacrifício e o trabalho, e todo o entorno de ser músico e cantor de ópera.

    OL – Já me disseram que minhas críticas dos espetáculos são excessivamente generosas. Respondo dizendo que é porque eu sei das dificuldades e dos sacrifícios que os músicos e cantores passam para apresentar o espetáculo ao público. Então se eu vejo algo negativo, não vou focar no negativo. Ou vou omitir, ou vou só colocar uma leve referência, e vou focar no positivo, porque sempre tem um positivo.

    FA – Ah, que bom.

    OL – Eu respeito muito a profissão, as dificuldades, e o treino intensivo dos músicos; é algo de muito admirável, e você tem que contribuir para com a arte de forma positiva. Então minhas críticas são no sentido de procurar o que é bom nos espetáculos.

    FA – Nós gostaríamos que todos os críticos fizessem como você. Infelizmente nem todo crítico pensa assim.

    OL – É. Eu acho que certos críticos querem insistir no aspecto negativo de uma forma narcisística, e ficam batendo naquilo para demonstrar que têm conhecimento.

    FA – É.

    OL – E frequentemente fazem isso sem nenhum embasamento teórico. Às vezes vemos duas críticas sobre o mesmo espetáculo, e um fala “o tempo do maestro foi muito lento” enquanto o outro diz “o tempo do maestro foi rápido demais.” Uai, o mesmo espetáculo? Um dos dois está errado.

    FA – Não é? [risos]

    OL – Querem dizer “estão vendo? Eu entendo disso, consegui notar o negativo.” Eu sou capaz de notar o negativo também, mas para mim a contribuição à arte -- o que é um dos papéis do crítico, para informar o público sobre o espetáculo -- é o oposto disso. É preciso mostrar ao público o que há de bom, para que eles tenham a motivação de ir ao espetáculo.

    FA – Sim, é preciso informar o público sobre os positivos. Bom, mas é isso, eu me defino como cantora / professora, porque eu tenho essas duas facetas na minha vida, mas eu encaro essas duas facetas da mesma forma. Acredito que a gente tenha que se preparar muito para as coisas, então me preocupo com a parte física. Cuido do que eu como, vou à academia, e me preocupo muito com todo o entorno tanto de ser professora como de ser cantora.

    Leio bastante para me informar sobre o que vou fazer, então acaba sendo uma dedicação o tempo todo, porque quando não estou ensaiando, estudando ou vocalizando, eu me preocupo em ler, em pelo menos me informar. Às vezes vou assistir a um filme, e no fundo estou assistindo aquele filme porque queria me inserir naquela época, para me contextualizar para algum papel que eu vou fazer. Então no fim acho que eu respiro e funciono e existo porque gosto muito do que eu faço, porque amo a arte, porque amo a ópera, e amo o que faço tanto como professora como quanto cantora. Então não tenho nenhum problema em dizer que trabalho de domingo a domingo sem parar. Nunca reclamei.

    OL - O que você gosta de fazer além da música clássica?

    FA – Eu leio. Eu gosto muito de ler romances. Gosto muito de coisas antigas. A gente que gosta de ópera gosta de coisas antigas, não é? Gosto desses amores antigos. Pratico Aikidô há mais de doze anos, que é o que me dá uma estabilidade para tudo, para a vida. É isso que eu gosto de fazer – correr no parque, praticar Aikidô, ler, mas o que eu gosto mesmo é de ouvir música clássica, estar na sala de concerto; não precisa ser ópera. Eu gosto de ir à Sala São Paulo. Tenho assinatura da temporada, então vou assistir música instrumental, concerto de oboé, o que for. Eu gosto de música.

    OL – Em termos de personalidade, você é mais introvertida ou extrovertida?

    FA – Eu sou tímida. Engraçado, nao é? Eu sou bem tímida. As pessoas esperam que por ser cantora a gente seja super extrovertida. A Marly é diferente de mim. A Marly é super animada, gosta de falar e conversar, e eu sou bem tímida, sou aquela pessoa que fica quietinha. Então eu precisei ir fazer teatro. Eu fiz Teatro Escola Macunaíma para ver se eu me soltava um pouquinho.

    OL – Ah, interessante. Você tem algo a acrescentar?

    FA – Acrescento que vou ficar muito feliz de encontrá-lo no domingo. Fico muito feliz de saber que tem algum crítico que está interessado em criticar positivamente. Agradeço a sua iniciativa de vir ao nosso espetáculo, porque você está vindo a passeio ao Brasil, não é?

    OL – Sim, estou vindo a passeio, mas estou aproveitando para me informar um pouco sobre o meio operático no Brasil. Na verdade – você vai se assustar com isso – eu quase nunca vejo uma ópera no Brasil.

    FA – Nossa!

    OL – Toda vez que eu venho, é fora da temporada.

    FA – Você fica até quando?

    OL – Eu fico aqui em São Paulo até segunda-feira, e volto para os Estados Unidos na sexta à noite.

    FA – Então não vai dar tempo, porque a gente está ensaiando a Adriana Lecouvreur, mas vai estreiar dia 2 de abril.

    OL – Exatamente, eu estou indo embora dia primeiro de abril, à noite.

    FA – Ah… Mas eu tenho certeza que haverá uma outra oportunidade. Fico muito feliz de saber de seu interesse, e ansiosa prá te conhecer no domingo.

    OL – Minha irmã e o marido também estarão lá – eles adoram ópera e sempre assistem às temporadas do São Pedro e do Municipal, e também o Met Live in HD nos cinemas.

    FA – Aquilo é ótimo mas eu nunca consegui assistir. Sempre que eu me organizo para assistir, eu nunca consigo.

    OL – Você já foi ao Metropolitan em Nova York?

    FA – Sim, já fui, mas é a mesma coisa, quando eu fui não tinha nenhuma ópera em cartaz. Eu assisti Giselle, o ballet.

    OL – Sim, no verão eles param, e entra o ballet.

    FA – Mas só de estar lá dentro, é uma energia, uma coisa... Valeu a pena de qualquer forma.

    OL – O meu website tem uma parte em português, que eu fico tentando desenvolver, não com muito sucesso. Há uma seção em cada língua: uma pequena em francês, uma em espanhol que é um pouco maior, uma pequeniníssima parte em alemão, uma em italiano, mas 97% é em inglês, e aí é bem extensivo, com milhares de artigos, muitas entrevistas, fôro de discussões, e a nossa pequena editora que publica livros de ópera.


    FA – Ah, eu vou dar uma olhada com bastante calma, porque é importante esse tipo de material, para a gente.

    OL – Sim, sua entrevista vai aperecer na parte em português inicialmente, e quando eu tiver um tempo vou traduzi-la para o inglês também para divulgar o trabalho que se faz pela ópera no Brasil. Se você entrar de membro no website você vê as fotos maiores e com menos anúncios, e pode fazer comentários ao invés de só ler. Para ser membro é de graça; é só fazer a inscrição.

    FA – Ah, legal. Acho que é interessante, então.

    OL – Então está bom. Obrigado.

    FA – Imagina, obrigada você; obrigada pelo seu interesse e nos vemos amanhã.

    OL – Nos vemos amanhã. Boa sorte na apresentação.

    FA – Obrigada, ciao ciao.

    OL – Ciao.

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    Vamos ouvir a cantora, em uma ária de Carlos Gomes, da ópera Salvatore Rosa:



    O vídeo clip abaixo contém um programa de televisão de meia hora (com o professor Claudio Piccolo) no qual Flávia discorre de forma clara e ao mesmo tempo erudita, sobre as origens to teatro musical:



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    Tenor americano Stephen Costello, diretor cênico brasileiro Paulo Esper, maestro brasileiro Luiz Fernando Malheiro, e barítono americano Scott Hendricks


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