• Entrevista Exclusiva de Opera Lively com o diretor e produtor Paulo Esper

    Opera Lively visitou o Brasil e entrevistou cinco artistas de ópera do Theatro São Pedro, na cidade de São Paulo, inclusive o grande maestro Luiz Fernando Malheiro. Apresentamos aqui nossa conversa com o braço direito do maestro, o diretor cênico, produtor, e coordenador artístico do teatro, Paulo Esper, que também é o coordenador da Academia de Ópera do São Pedro, e diretor artístico da Cia. Ópera São Paulo que apresenta performances no interior do Estado. Paulo tem 30 anos de experiência na carreira artística e muito o que contar sobre o ambiente operático nacional e internacional. Além desses tópicos, ele fala do treino de novos cantores, e da competição de canto que ele fundou. É uma entrevista muito interessante!
    THIS INTERVIEW IS ALSO IN ENGLISH - CLICK [(HERE)] FOR THE ENGLISH VERSION

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    Biografia Artística

    Nascido em Jacareí em 1967, Paulo iniciou seus estudos de canto lírico em 1984. Com a ajuda de sua prima, a cantora Dalva Esper Nader, passou a estudar em São Paulo com a soprano Claudia Mocchi, com quem permaneceu até 1992.

    Neste mesmo ano, seguindo orientação de sua professora, se inscreveu em um Curso de Interpretação de Ópera com o maestro inglês Harry Ligth e foi o único principiante escolhido para participar dos Concertos de Encerramento, ao lado de grandes nomes da cena lírica brasileira e com a Orquestra do Theatro Municipal de São Paulo, cantando na opereta O Morcego de Strauss e na ópera Dido and Aeneas de Purcell.

    Em 1985, estreou com o Teatro Lírico de Equipe, na ópera Don Pasquale e no ano seguinte com a mesma companhia, cantou na ópera Werther.

    No ano de 1987, Paulo deu um passo importante em sua carreira como cantor: foi estudar no maior teatro de ópera da América Latina, o Colón em Buenos Aires. Na Argentina, conheceu muitos cantores e participou de um grupo lírico, cantando com eles em recitais, durante os seis meses em que morou na capital portenha. No Colón teve ótimas notas nos cursos de interpretação e foi convidado para ser figurante de cena na Temporada Oficial, ao lado da famosa soprano francesa Regine Crespin, na ópera A Dama de Espadas, de Tchaikovsky.

    Em 1988 Paulo viajou para a Espanha, onde na cidade de Barcelona participou do Concurso de Canto Francisco Vinás, ganhando uma bolsa de estudos para o programa do Teatro Liceu, com o famoso barítono italiano Gino Bechi.

    De volta ao Brasil, em 1989, fundou em sua cidade natal o Projeto Música Jacareí , trazendo famosos cantores e músicos eruditos para diversas apresentações. Logo em seguida Paulo fundou a Cia. Ópera São Paulo, que hoje acumula mais de 500 espetáculos por todo o país.

    Em 1993 Paulo criou o Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas. Como diretor deste Concurso realizado em São Paulo e em Jacareí a cada dois anos, Paulo conquistou a admiração e a confiança dos maiores cantores de ópera do mundo, críticos e jornalistas internacionais, diretores artísticos e empresários líricos, dos quais muitos já estiveram nas referidas cidades como membros da banca julgadora do Concurso Callas.

    Paulo já participou de conferências internacionais, palestras, aulas magnas e coletivas com nomes como Luciano Pavarotti, Plácido Domingo, Jose Carreras, Alfredo Kraus, Montserrat Caballé, entre muitos outros. Tornou-se amigo de outras celebridades e as trouxe ao país, como Magda Ólivero, Fedora Barbieri, Rita Contino, Luigi Alva, Fiorenza Cossotto, Adelaide Negri, Jaime Aragall e Juan Pons.

    Paulo também criou o Festival de Ópera da cidade de Florianópolis, do qual foi diretor artístico por seis anos consecutivos. Entre inúmeros concertos e recitais, já produziu óperas completas encenadas como La Traviata, Cavalleria Rusticana, Madama Butterfly e Carmen.

    Recebeu diversas medalhas de honra ao mérito e outras condecorações, inclusive a do Ministério Italiano. Foi Consultor de Música do Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, órgão oficial do governo italiano e Vice-Presidente da Associação São Pedro Pro-Cultura Paulista, no Estado de São Paulo.

    Paulo já atuou como jurado em diversos concursos internacionais, ao lado de grandes cantores, críticos e diretores de teatros.

    Paulo assumiu cargos de direção no Theatro São Pedro em janeiro de 2012, e tornou-se o principal colaborador do Maestro Luiz Fernando Malheiro quando o mesmo assumiu a direção artística do teatro na segunda metade de 2014.

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    Entrevista exclusiva de Opera Lively com o diretor cênico e produtor Paulo Esper do Theatro São Pedro, em São Paulo, Brasil

    Esta é a entrevista Opera Lively de número 198. Direitos autorais de Opera Lively. Reprodução de trechos desta entrevista é autorizada desde que a fonte seja citada e um link para a entrevista completa esteja disponível. Para reproduzir a entrevista completa, use o botão Contact Us.


    Luiz Gazzola para Opera Lively - O Theatro São Pedro é uma instituição antiga, mas mais recentemente o espaço passou a ser utilizado predominantemente para a ópera. Por favor descreva para os nossos leitores a história operática do São Pedro. Quando começou a companhia de ópera?


    Paulo Esper – O Theatro São Pedro, como você mesmo falou, é de 1917 portanto está à beira de seu centenário. A primeira ópera aqui foi Gianni Schicchi em 1983. Eu nem sabia da existência do teatro, mas por uma coincidência do destino teve a direção artística do maestro Luiz Fernando Malheiro que hojé é o diretor artístico do Theatro São Pedro. A segunda ópera foi apenas em 1998, depois da reforma e do tombamento feito pelo governador Mario Covas: foi La Cenerentola de Rossini, regida por John Neshling com a antiga OSESP.

    OL – Mais recentemente a ópera aqui adquiriu uma programação intensiva. Quando começou esse foco na ópera, no Theatro São Pedro?

    PE – O foco na ópera começou a partir de 2003 quando a OS [Organização Social de Cultura] que administrava o teatro fazia editais para produtores independentes. Eu era um deles e quase todo ano tinha ópera contemplada, mas que não era totalmente paga pela OS. Nós produtores também tínhamos que aportar dinheiro. E assim se faziam temporadas esparsas aqui. Através de um decreto do Secretário de Estado João Batista de Andrade que hoje é diretor do Memorial da América Latina, o São Pedro se transformou em um teatro de ópera em 2008. A partir de 2010 o próximo Secretário criou a Orquestra do Theatro São Pedro [ORTHESP]. Então de 2010 para cá temos um temporada estável com a orquestra da casa, o que se intensificou muito no final de 2014 com a vinda do maestro Malheiro para cá, com grandes produções, títulos raros, títulos que antigamente não eram feitos em São Paulo, uma temporada realmente de peso com a direção dele aqui na casa.


    Theatro São Pedro, exterior

    OL - Quais são as verbas e que porcentual das despesas é coberto? A companhia funciona no vermelho ou consegue se sustentar ou mesmo ter lucro?

    PE – Não, lucro não tem porque é uma OS. Não tem lucro, administra. Eu não sei a quantidade de verbas porque isso é na nossa sede administrativa. Mas mesmo com os cortes pela crise, a gente tem conseguido fazer uma temporada mais do que digna, com grandes nomes da cena lírica brasileira e muitos convidados do exterior. Acredito que o nosso budget esteja estável, porque nenhum chefe ainda apertou o nosso pescoço aqui, então está indo tudo bem, felizmente.


    Theatro São Pedro, interior

    OL - É difícil fazer ópera no Brasil?

    PE – É muito difícil.

    OL – Quais são os obstáculos?

    PE – É muito difícil porque a maioria dos administradores públicos -- o que felizmente não é o caso de São Paulo que é uma coisa à parte no Brasil – não acredita muito na cultura, na música clássica. Você vê, a gente conversa com maestros de várias orquestras de vários Estados: a situação realmente está muito feia, e dá muito desgosto para todos nós que produzimos música clássica e ópera. Então esse é o maior obstáculo, porque artistas nós temos, temos bons maestros, bons cenógrafos. Falta mesmo aquela participação do poder público em um país que é diferente, como você sabe -- porque você vive na América do Norte -- em que os patrocinadores, os aportes privados principalmente aqueles das pessoas físicas são praticamente inexistentes, porque nós não tivemos aquela cultura que a América do Norte tem, que a Europa tem. Então isso nos dificulta muito.

    OL - Qual é o tamanho do corpo de cantores? Quantos são contratados permanentes? Quantos free lancers, e quantos estudantes?

    PE – Nós trabalhamos com uma média de 100 artistas brasileiros por ano. Já desde a temporada do ano passado criamos com os alunos que se formaram na Academia no ano passado um corpo de 15 cantores que é o nosso elenco estável. Foi uma idéia maravilhosa que o maestro Malheiro teve, que esses jovens ficam praticamente todos os dias aqui no teatro estudando óperas, música de câmara brasileira, canções de câmara de compositores internacionais. Isso tudo faz parte de um ciclo para a carreira de todos eles. Estão muito contentes com isso, participam de 80% ou mais de nossa temporada. E fora isso temos a Academia de Ópera, como você citou, com 23 participantes que começaram agora em fevereiro e já na semana passada fizeram o seu primeiro espetáculo, com muito sucesso de público, foram canções de Beethoven.


    Um espetáculo estrelado por estudantes no São Pedro

    OL - O público prestigia? É comum as apresentações terem os ingressos esgotados? Como está a popularidade da ópera no Brasil, ascendente ou descendente?

    PE – Muito ascendente! É isso que deixa a gente mais inconformado ainda, de os políticos não verem o crescimento dos jovens nos teatros de ópera. Na semana passada aqui em pleno domingo, com os jovens da Academia, que são nomes que podemos dizer que ninguém conhece no ambiente de ópera, tivemos 400 pessoas no teatro assistindo e prestigiando esses jovens. Quer dizer, público tem, não importa se é pago ou se é grátis. O que precisa é você oferecer uma coisa para o público. O São Pedro está aí com mais de 80 atividades nessa temporada. Nós tivemos as seis récitas de Don Quixote todas esgotadas, em dois dias de manifestações intensas aqui em São Paulo contra a política. Então tivemos um sucesso muito bom e que nos deixou a todos muito contentes.


    Casa cheia durante Don Quixote

    OL - Por favor descreva as atividades da Academia de Ópera.

    PE – São várias. Eles têm repertório, técnica vocal, os idiomas francês e italiano, têm a dramaturgia, professores de interpretação. Têm atividades todas as segundas, terças e quartas feiras durante todo o dia. Muitos dos nossos acadêmicos são de fora de São Paulo, então optamos desde a criação da Academia por fazer dias específicos para que eles possam também fazer suas atividades em suas cidades.

    OL - Quantos jovens se candidatam para as vagas?

    PE – Tivemos mais de 150 para esse ano. Eram 18 vagas e aumentamos para 23 devido a esse grande número de inscritos.

    OL - O nível de qualidade do ensino e treinamento operático é equivalente ao de outros centros no exterior?

    PE – Não conheço muitos mas acredito que estamos no caminho certo. Quando eu queria fazer carreira de cantor de ópera – fiz pouco porque depois comecei a produzir -- frequentei o Instituto do Teatro Colón de Buenos Aires e também o Instituto Superior de Arte de Barcelona, do Liceu. Os caminhos são esses – são aulas de técnicas vocais. Fora os professores estáveis que nós temos, quando a gente recebe figuras importantes para a temporada esses cantores ficam também com os nossos acadêmicos por alguns dias dando Masterclasses, ensinando dicção, respiração; isso é muito importante então acredito que o caminho está bem andado.

    OL - E o ensino universitário e conservatórios, mestrado e doutorado de música? Quais são as melhores escolas e conservatórios?

    PE – No Brasil eu não saberia te dar nomes. Sei que infelizmente temos muito poucos. Aqui em São Paulo temos a EMESP que é muito boa e também tem aula de canto lírico. Tem a Faculdade de Música da UFRJ do Rio de Janeiro, e eu desconheço os demais. Temos muitos professores e escolas particulares, como a Santa Marcelina que também é importante.

    OL - Como se compara o ambiente operático no Brasil, e em outros países grandes da América do Sul que têm teatros importantes, como a Argentina, o Chile e o Peru?

    PE – Desde que eu comecei a estudar canto há 30 anos, o Teatro Colón (de Buenos Aires, Argentina) sempre teve um papel muito importante na América Latina. Apesar de todas as crises que passou nesses últimos 20 anos, ainda é o teatro mais importante. Temos o Municipal de São Paulo, o Municipal do Rio de Janeiro, e o Theatro São Pedro. Infelizmente os outros ficam à margem. Temos um importante festival, o de Manaus, que esse ano fará uma edição muito importante da Medea em francês, de Cherubini que é uma versão original do compositor. Vão fazer também o Requiem de Verdi, vários concertos, e Adriana Lecouvreur que é uma co-produção com o Theatro São Pedro.

    O Chile, é claro, tem um teatro que de todos acho que é o que teve menos altos e baixos. Sempre manteve uma programação regular com nomes importantes que vinham a Santiago. Agora mudou a direção artística depois de mais de 20 anos. Saiu o diretor geral Andrés Rodriguez, entrou um francês do Teatro de Toulouse que vai manter ou melhorar ainda mais a qualidade da temporada.

    OL - Há muitas óperas contemporâneas sendo compostas no Brasil? Vocês estão encenando nessa temporada uma ópera brasileira inédita, O Espelho. Qual seria o ambiente para os compositores? Tem havido produções?

    PE – Infelizmente o Brasil aproveita pouco esses compositores. O maestro Malheiro trabalha muito nessa linha, e quando ele veio para cá, para a temporada 2015, ele criou uma série chamada Música de Câmara Brasileira dos Séculos XX e XXI que é justamente para que os compositores desses séculos possam mostrar as suas obras. Isso tem sido uma satisfação e uma surpresa muito positiva para todos nós com os jovens compositores mostrando seus trabalhos. Ele inclui sempre uma ópera brasileira na temporada. O ano passado nós tivemos Poranduba do maestro Villani-Côrtes, que foi um triunfo, também com seis récitas lotadas.


    Poranduba

    Esse ano, como você disse, teremos O Espelho em nossa temporada. Fizemos agora um espetáculo nessas noites de ópera de um compositor paulista, Leandro Oliveira, chamado Musa do Subsolo. Foi uma surpresa muito agradável, com o teatro cheio também, duas noites. Era uma soprano, dois atores e oito músicos, e foi realmente uma composição surpresa para todos nós. O mercado existe. O João Guilherme Ripper é um grande compositor de ópera brasileiro que hoje preside a Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O que precisa é mais espaço para as óperas brasileiras. O São Pedro abriu o caminho.

    Esse ano temos também uma devolução ao público, que é uma obrigação nossa, das obras de Carlos Gomes. O Theatro São Pedro faz Condor agora com piano, e faz um grande concerto com mais de duas horas de música de Carlos Gomes em abril. O Municipal faz Fosca, Minas Gerais faz O Guarany, então estamos resgatando Carlos Gomes. Apesar de ele ser do século XIX também é uma obrigação nossa.


    Paulo agradecendo os aplausos pela encenação de Condor, dirigida por ele


    Uma montagem de O Guaraní no Teatro Amazonas

    OL – Certo. Sei de sua competição, o Concurso de Canto Maria Callas. Fale-nos sobre esse.

    PE – O concurso foi criado por mim em 1993. Vamos fazer agora a décima-quarta edição. Recebemos jovens do Brasil e da América Latina, é fechado para sulamericanos. Sou jurado em muitos concursos na Europa, e vejo que quando aparecem aquelas vozes russas e do leste europeu, e muitos espanhóis que agora superam os italianos, e coreanos principalmente, eles vêm e abocanham todos os grandes prêmios. Então fazer um concurso aberto para o mundo inteiro no Brasil, onde a gente já tem uma temporada de ópera escassa se você for ver o tamanho de nosso país, acho que seria muito desigual. Eu sempre pensei nisso.

    O concurso é sempre um sucesso. Esse ano o maestro Malheiro é o presidente da Banca pela terceira vez. Teremos a presença da grande soprano americana June Anderson que fez uma carreira estelar em todos os grandes teatros do mundo e vai ser homenageada durante o concurso. De quatro anos para cá o concurso monta no interior de São Paulo, não aqui no São Pedro, uma ópera com os vencedores. Assim foi com o Rigoletto, com o Barbeiro de Sevilha, o ano passado com a Carmen, e esse ano a ópera da vez é La Bohème de Puccini. Então vamos ver os talentos que vão surgir, para que a gente possa montar La Bohème.

    OL – Que espetáculo! Há outras competições aqui no Brasil?

    PE – Infelizmente não. A América do Sul é muito pobre com relação a isso. O Colón tinha um, não existe mais. No Brasil específico para ópera só o Maria Callas, e temos um outro no Perú, na cidade de Trujillo, que é interessante de canto lírico. Já fui jurado lá uma vez – e só, são muito poucos, infelizmente. Chile, nada.

    OL - Como está a situação do Municipal? Como o nome indica, as verbas são separadas? Me parece que aqui vocês estão produzindo mais óperas do que no Municipal.

    PE – Como está a situação do Theatro Municipal de São Paulo eu não sei. Só sei que a verba lá é de trinta milhões de reais, e a nossa é de três. A gente precisa fazer uma temporada com três milhões, cinco óperas [Nota do editor – sem contar dezessete outras nas demais séries], mais de vinte concertos, Academia e tudo mais. A gente está lutando para que isso melhore. Temos grande apoio da Secretaria de Estado da Cultura mas é que realmente a crise do ano passado para esse fez alterar todos os planos. Felizmente não precisamos cancelar nada da temporada do ano passado, e rezamos para que esse ano a gente consiga cumprir com tudo aquilo que prometemos.

    OL – Então, com um décimo do budget do Municipal, vocês conseguem ter suficientes recursos cênicos, e figurinos?

    PE – Claro que a gente quer sempre mais. Quanto mais você tem, mais você investe, mas pelo que a gente tem, temos conseguido. Eu não sei da verba total, nem quanto é gasto com cada ópera do Theatro Municipal.

    OL - Ouvi falar que você tem outra companhia, Cia. Ópera São Paulo, que já fez apresentações na sua cidade natal de Jacareí, e mais de 500 espetáculos em todo o Brasil. Fale-me sobre isso.

    PE – Então, eu comecei a minha carreira como cantor em 1984. Quando fui estudar na Espanha, no Liceu de Barcelona em 1988, tive a honra de conhecer o grande barítono Dino Bechi, grande companheiro de palco e de gravações da Maria Callas. Um dos dias, ele me disse “Paulo, se você tiver que voltar ao Brasil” – e eu tinha que voltar, porque não tinha recursos para ficar muito tempo na Europa – “você tem que criar alguma coisa na sua cidade como eu criei em Firenze, que é a minha cidade.” E quando voltei, pus isso na minha cabeça, então criei um projeto chamado Projeto de Música de Jacareí que é a minha cidade natal, em 1989. Como isso saía muito no jornal local, que é um jornal só para todo o Vale do Paraíba, secretárias ligavam para a cidade pedindo informações sobre o que a gente fazia lá. Aí eu falei “então vamos criar uma companhia de ópera” com o nome de São Paulo, porque eu não podia levar espetáculos para Taubaté e para Caraguatatuba um projeto chamado Música de Jacareí; não tinha sentido. Então pus Companhia Ópera São Paulo que englobava o Estado todo. E a gente começou a fazer os espetáculos já em 1991.

    Em 1993 a coisa se firmou bastante. Foi quando eu criei o concurso. Justamente nesse ano, por ironia do destino nesse ano morreu o Dino Bechi. Eu tinha o endereço dele marcado em um papel, com telefone, com a letra do Dino Bechi. Eu tenho isso guardado até hoje. Eu não sabia nada da família dele, mas escreví para aquele endereço falando da minha tristeza pela morte do maestro, e falando que o primeiro Concurso Maria Callas tinha um prêmio dedicado a Giuseppe Verdi, melhor intérprete de Verdi porque a Callas tinha sido uma grande intérprete de Verdi, mas que esse prêmio seria intitulado Gino Bechi nesse ano.

    Depois de um mês e pouco eu recebo uma carta da viúva de Dino Bechi – eu não sabia que ela existia, porque não tive esse tipo de conversa com ele durante a nossa estada em Barcelona – agradecendo e dizendo que estava muito feliz e honrada com a minha dedicação em dar esse prêmio com o nome do Dino Bechi.

    Aí a gente faz espetáculos. Hoje a companhia está nas mãos de meus auxiliares que trabalham para mim em muitas cidades, porque eu fico aqui como Assessor Artístico do São Pedro e não posso ficar saindo muito, mas a companhia continua fazendo o seu trabalho por aí.

    OL – Você escreveu um livro, não é? Fale-nos sobre esse. [Nota do editor – Paulo Esper está finalizando seu livro que pretende chamar de ‘Meus primeiros 30 anos de carreira artística e meus mil espetáculos’. “No livro, contarei um pouco sobre minha carreira e minha vida artística que começou em 1984. Ele ainda está em planejamento e pretendo distribuí-lo para amigos e pessoas que se interessam pelo meu trabalho”.]

    PE – Não é um livro, é um resumo desses meus trinta anos de carreira. Eu tenho muito orgulho de ter saído no último Dicionário de Ópera da Europa que foi escrito por um crítico espanhol, um dicionário de mais de 1.000 páginas em que figura o meu nome com uma foto minha falando do meu trabalho no Brasil. O único brasileiro que figura nesse livro fora a Bidú Saião sou eu. Eu fico muito honrado com isso. Ainda vou escrever um outro livro. No próximo concurso, de número XV, vou escrever sobre as impressões que tive – embora não a tenha ouvido – da carreira e da pessoa de Maria Callas, comparando-a com outras colegas do período dela. Vou te mandar um exemplar.

    OL – Obrigado. Temos uma pequena casa de edição – a Opera Lively Press – e talvez você se interesse em publicar conosco.

    PE – Ah, sim, estejamos em contato sobre isso, então.

    OL - Fale-nos sobre as maiores lições aprendidas em trinta anos de carreira artística.

    PE – As lições são muitas. O amor é muito, não é? Tem hora que a gente tem que deixar a emoção e o coração um pouco de lado -- isso a gente aprende a duras penas – porque a gente não consegue o que quer todas as vezes, então temos que deixar o pé no chão e não querer fazer ópera principalmente sem as condições financeiras. Mas eu acho que o balanço é muito positivo. Eu tenho nesses últimos dois anos o apoio total do maestro Malheiro, que é o meu diretor artístico aqui, para investir nos grandes nomes da cena lírica internacional. Muitos que vêm, apesar de vinte e poucos, trinta anos de carreira, pela primeira vez ao Brasil. Isso foi uma coisa que sempre senti.

    Os diretores de teatro no Brasil – hoje a coisa está mudando, mas até muito pouco tempo atrás – não eram gente do meio da ópera que conheciam esses grandes nomes para convidá-los. Então nós tínhamos por exemplo Renato Bruson, Juan Pons, Mariella Devia, todos que eu trouxe aqui para o Theatro São Pedro, que vinham para o Colón de Buenos Aires mas nunca vieram ao Brasil. Quer dizer, é um absurdo tudo isso não ter acontecido no nosso Brasil. É um hiato de mais de vinte anos sem grandes nomes aqui.

    Os nossos jovens precisam deles, porque a América Latina é muito longe da Europa e da América do Norte, onde você pode até substituir um artista na última hora, telefonar e daqui a duas horas o artista está no seu teatro. Nós não, nós temos aí doze horas de diferença de viagem de avião. Então os jovens precisam desse contato. Por isso que o Concurso Maria Callas todo ano traz uma grande voz – grande no sentido que eu digo de uma grande carreira – para estar com eles uma semana, para eles conviverem de perto. Então, por exemplo, eu trouxe Fedora Barbieri que cantou com a Callas por muitos anos, trouxe Magda Olivero, trouxe Fiorenza Cossotto, Virginia Zeani, agora veio Stefania Bonfadelli, veio Juan Pons. Eles precisam estar perto dessas pessoas para poderem aprender um pouco. Gabriella Tucci que cantou Medea com Maria Callas, Teresa Berganza, Fabio Armiliato, Daniela Dessì, nomes que ainda fazem uma carreira muito importante na Europa e na América do Norte, eles precisam disso. Mas a gente aprende que com a perseverança há um caminho, e reza, não é? O Espírito Santo sempre nos ajuda. [risos]

    OL – Sobre direção de ópera, o que você pensa do movimento Regie? Vocês usam o movimento nas produções do São Pedro?

    PE – Nós tivemos uma produção não digo conservadora, porque era bem modernista, mas não fugindo do libreto, que foi o Don Quixote, com direção de Jorge Takla. Foi um triunfo. Agora vamos também estrear a ópera Adriana Lecouvreur que é baseada em um clássico da literatura francesa, embora tenha sido composta por um italiano, com uma produção totalmente moderna do André Heller-Lopes que não fica nada atrás. Quer dizer, você tem que apostar nos diretores que são inteligentes o suficiente para não aproveitar essas ideas modernas e transgredir, e ofender o libreto totalmente do libretista em quem o compositor confiava quando fez a música para aquela ópera. Então são versões opostas, mas todas as duas elegantemente feitas no palco, muito interessantes. Você agora vai poder ouvir um pouquinho a Adriana [nota do editor – fomos convidados para o ensaio de Adriana Lecouvreur].


    Ensaio de Adriana Lecouvreur no Theatro São Pedro - Foto Opera Lively

    Não sou nada contra. Sou contra um Calixto Bieito [controvertido diretor espanhol] que põe Un Ballo in Maschera num centro de prostituição dentro de um banheiro, com um dos principais protagonistas cantando uma das grandes árias de Verdi sentado em um vaso sanitário lendo um jornal. Isso eu sou contra. Acho que isso não traz o público para o teatro de ópera. Muito ao contrário, afasta o público. Infelizmente isso aí a gente vê todo dia aqui na Cracolândia, então ninguém compra um ingresso para assistir um cantor em um vaso sanitário com as calças abaixadas lendo um jornal. Não é isso que o público quer ver. Ele quer ver, claro, uma coisa moderna, mas bem feita e bem produzida. E o São Pedro tem feito essas duas linhas muito bem feitas desde a temporada do ano passado. Acredito que temos aí uma boa temporada. O Municipal também faz essa linha, e Belo Horizonte. O Brasil não faz muito essas apostas tedescas. Na Alemanha tem muita coisa disso que eu não gosto. Já vaiei muita ópera na Alemanha por isso. Gritava o nome do compositor, não o nome do encenador. [risos]

    OL – Para terminar, por favor diga algo de pessoal sobre a sua filosofia de vida e seus hobbies.

    PE – Na verdade a gente não tem tempo para hobby, que é um luxo para quem trabalha em teatro de ópera. A minha vida é dedicada à ópera já desde os meus dezessete anos de idade. Estou com trinta anos de carreira. Não sei amar outra coisa a não ser a ópera. Já deixei muita coisa pessoal em favor da ópera. Não me arrependo disso. Um dos meus hobbies, se eu posso encarar isso como hobby, são as viagens que sou convidado a fazer três ou quatro vezes para a Europa para ser jurado de concursos. Não é para passear, mas é claro que depois você prestigia produções em grandes teatros, você marca encontros com cantores e diretores, não deixa de ser um trabalho mas também não é um trabalho árduo porque é um prazer trabalhar com música. Acho que é uma dádiva de Deus. Somos abençoados por trabalhar nesse campo.



    OL – Quer acrescentar algo que não foi perguntado?

    PE – Quero agradecer a você por tudo o que faz pela música e pela ópera, e por seu interesse de estar aqui no Brasil fazendo essas entrevistas com a gente do Theatro São Pedro. Obrigado a você.

    OL – Muito obrigado pela grande entrevista.

    PE - De nada. Sempre que vier visitar São Paulo, me ligue; vamos almoçar juntos e conversar sobre ópera. Eu espero que você compareça a uma de nossas produções completas.

    OL - Terei muito prazer.

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