Il Guarany, de Carlos Gomes

Nessa área dedicada à discussão de óperas em português, eu não poderia deixar de lado o trabalho mais importante de todos nessa língua, O Guarani de Carlos Gomes. Enquanto que no exterior Carlos Gomes, apesar de bem considerado, não goza da unanimidade de outros compositores consagrados, no seu nativo Brasil essa ópera é encenada frequentemente, e é considerada algo assim como um patrimônio nacional. O estile de Carlos Gomes parece bastante com o de Ponchielle. Il Guarany me fez lembrar da Gioconda. Verdi também vem à mente, e é interessante notar que o grande Verdi estimava a música de Carlos Gomes, que estudou composição na Itália durante a vida de Verdi, que assistiu a algumas de suas óperas. Na verdade, para mim o problema de Carlos Gomes não é a qualidade, que é alta o suficiente, mas sim a falta de originalidade. Apesar to tema genuinamente brasileiro, a ópera Il Guarany é sobretudo uma ópera italiana, composta exatamente no estilo prevalente da época. Porque então Carlos Gomes não adquiriu tanta fama no exterior? Precisamente porque, enquanto muito bom no que fazia, não fez nada de novo, e havia outros na época que o faziam tão bem quanto ele. Portanto, seu talento de certa forma se diluiu no mar amorfo de outros compositores que estavam todos a compor da mesma forma. Caruso era um dos fans da música de Gomes.

A abertura, chamada de Sinfonia, é muito bonita. A parte vocal da ópera abre com um coro de caçadores, que soa muito como os de Verdi. A segunda ária de Cecilia, baseada em uma polaca melodiosa, é muito boa, com uma pontuação coral muito eficiente. Antônio's Ave Maria também é muito bonita - Salve, possente Vergine. Segue-se o desaguar dessas árias em um conjunto bastante impressionate. Em seguida, Gomes propõe o excelente dueto Sento una forza indomita, que atingiu certa fama como peça isolada. Chegamos assim ao final do primeiro ato, que é homogeneamente bom.

O segundo ato nos tras a magestosa ária para Peri, Vanto io pur superba cuna. Segue-se uma cena com bastante impacto teatral, cheia de ação, que termina em um dueto dramático, Serpe vil. A qualidade do trabalho continua alta, e o próximo coro, Udiste? - L'ore è un ente sì giocondo novamente evoca a grande habilidade de Verdi com esse dispositivo. O interesse e a variedade são mantidos pelo que vem a seguir, uma agradável e melodiosa valsa-rondò - Senza tetto, senza cuna, Canzone dell'Avventuriere! Agora, vem a balada de Cecilia, Oh, come è bello il ciel! - C'era una volta un principe. A orquestração é deliada, com sons de guitarra, leves, com belas oportunidades para a soprano trabalhar a linha musical e produzir algumas coloraturas. Essa peça é muito lírica e romantica, e me agrada muito. Vamos ouvi-la aqui, em uma produção brasileira, com uma boa soprano:

http://www.youtube.com/watch#!v=GRXK...eature=related

O dueto entre Cecilia e seu assaltante Gonzales é muito dramático, com uma boa dose de pathos: Donna, tu forse l'unica. Segue-se mais ação com boas possibilidades teatrais, e chegamos ao final do ato II. Trata-se aqui de um conjunto muito majestoso e impressionante, em duas partes. A segunda parte traz-nos o ataque dos Aimorés e é apropriadamente solene, com um momento de mêdo congelado, até que subitamente todos se lançam à luta.
A orquestração é muito excitante.

O ato III abre com um ballet, eis aqui uma apresentação do mesmo:

http://www.youtube.com/watch#!v=8L0Q...eature=related
http://www.youtube.com/watch#!v=aHEt...eature=related

O coral Aspra, crudel, terribil, é muito bom e termina com uma frase de muito impacto, Ferro e fuoco. Novamente a variedade e teatralidade desse trabalho se fazem sentir, quando o chefe dos indios Aimorés canta uma ária que é de congelar o sangue nas veias. A ária transmite uma selvageria que é evocativa da agressividade desses guerreiros (os Aimorés eram tradicionalmente muito belicosos). O compositor então torna-se mais meloso e romântico, quando o chefe índio vê o rosto de sua prisoneira e apaixona-se por ela, adocicando e amaciando o tom de voz ao falar com ela. A mudança de tom é sensaional. Muito bem, Maestro!

Next, the chief Aimorè indian sings a bone-chilling aria, it does feel savage and evocative of the fierce tribe's warring ways (the Aimorès historically were very bellicose indians). He turns more mellow and romantic as he sees the beautiful face of his prisoner and falls in love with her, addressing her more gently. The change in tone is striking. Well done, Gomes!

Em seguida, há um aspecto curioso, uma gaffe dos libretistas italianos, e não sei porque um brasileiro legítimo como Carlos Gomes não corrigiu o erro: o cacique chama Pery de "o tigre to deserto." Hmmm.... que deserto, e que tigre??? Os arredores do Rio de Janeiro em 1560 (tempo e local da ópera) eram uma luxuriante floresta subtropical, não havia nenhum deserto à vista por milhares de quilômetros, e tigres não eram parte da fauna brasileira. Certamente, trata-se de uma metáfora, mas como haveria um cacique Aimoré a idéia de falar metaforicamente em um tigre e em um deserto, conceitos que certamente ele desconhecia? Após esse tropeço engraçado, há outro momento muito dramático e rico em possibilidades de encenação: o cacique quer matar e comer Pery, mas Cecilia pede pela sua vida. A linha vocal de Pery é sofisticada e lamentosa: Ah! tu me vedrai morir!.

O tema da abertura - tão famoso no Brasil por ter sido usado pelo sistema público de rádio por décadas - volta brevemente, em um efeito muito bem sucedido. O cacique dá a Pery e Cecilia um momento a sós, para que possam expressar o amor mútuo antes da morte de Pery. The theme of the overture comes back briefly to a beautiful effect. The Cacico grants to Pery and Cecilia a moment alone to express their love for each other before Pery is killed. Segue'se um dueto entre os dois protagonistas, pungente e lacrimoso, e verdadeiramente soberbo. Ebben, che fu - Perché di meste lagrime. Trata-se aqui de material da mais alta qualidade. OK, vem então a quase obrigatória cena, na ópera italiana da época, de um envenenamento. Os índios cantam em coro, e o tema da abertura volta em força total enquanto os índios se ajoelham diante de seus deuses. O efeito é muito solene e a orquestração muito bonita. O coro é verdadeiramente sublime, seguindo-se um final curto, quando os portugueses chegam, como salvadores. Já temos três sólidos atos de qualidade A.

Ato IV começa por recuperar elementos da abertura que são diferentes daqueles que já haviam voltado. As vozes dos aventureiros parece dissolver-se em uma música ondulante, que faz um belo efeito. Surpresa, Pery ainda está vivo - parece que o veneno não era dos melhores, risos... quando estamos próximos a desafiar a suspenção de descrença, aprendemos que ele tomou uns antídotos. Gonzales entoa então uma bela ária, In quest'ora suprema.

Boas cenas dramáticas continuam, há uma cena de batismo, o que de certa forma interrompe o ímpeto da músia. O ato IV parece mais teatral do que operático, pois há necessidade de comprimir muita ação em um período curto de tempo, e não há espaço para boas árias. Uma pena, pois é o único momento dessa excelente ópera que parece perder um pouco de fôlego. Pery recupera a ação musical com um curto mas bem ascendente arioso que é bastante tocante, Al Dio che in me regenera. Cecilia também ganha uma oportunidade para brilhar, com Che sento? Ed io dividermi.

Chegamos assim à Gran scena e terzetto finale ultimo. Espectacular! Don Antonio tem a oportunidade de tornar-se um homem-bomba 450 anos antes de a moda pegar (risos) e a opera literalmente termina com um estouro, e a bela abertura volta be última vez, para um bombástico (no bom sentido) final que provoca arrepios.

Em resumo, trata-se de uma ópera muito boa, com homogênea alta qualidade, que mantém o interesse do audiófilo por toda a sua duração. É difícil compreender porque essa ópera não é parte do repertório, exceto no Brasil. Ela ganha de mim uma avaliação de A+. Ela não é muito difícil de cantar ou encenar, não é longa demais, é cheia de potencial dramático, bela orquestração (ou melhor dizendo, arranjos de orquestra), algumas árias extraordinárias assim come excelentes duetos e conjuntos. É uma ópera vitoriosa do começo ao fim.

A única explicação para a sua dificuldade em sobreviver fora do país nativo do compositor é o fato de que ela não foi assinada por um Verdi ou mesmo um Ponchielli, ao invés de um compositor sul-americano obscuro. Guardadas as devidas proporções, é claro, pois não se trata aqui do impacto majesoso de um Don Carlo, ou mesmo de um Trovatore ou Gioconda (estilisticamente mais similar). w

A melhor maneira de apreciar essa ópera, é quando tentamos nos esquecer de compositores como Verdi e apenas escutamos essa ópera, dando a ela uma chance justa. Assim, percebemos imediatamente de que se trata de uma ópera muito boa, certamente muito melhor, por exemplo, de que um Verdi menor como I Lombardi. No entanto, como infelizmente Carlos Gomes não goza da fama de Verdi, I Lombardi acaba sendo muito mais encenada do que Il Guarany, o que parece um pouco injusto em termos estritamente musico-teatrais.

Eu enfaticamente recomendo essa ópera. Há um CD bastante bom, com Plácido Domingo no papel de Pery.